Um garotinho! Uma criança de apenas 6 aninhos arrastada pelas ruas do Rio de Janeiro. Uma barbaridade sem limites. Um acontecimento irracional, irreal, e irrefutável que provocou reações adversas em todas as classes, comunidades, famílias...Em mim, particularmente ao primeiro contato com a notícia, fiquei chocada, perplexa. Chorei, calei e me senti tomada pela vergonha de assistir ao aumento da barbárie em meu país. Vergonha por olhar pra trás e ver que nós não somos como os jovens de ontem... Lutavam pelo que acreditavam e pelo que queriam... corriam realmente atrás do que acreditavam...sem medo, e eu, justamente como a maioria dos meus contemporâneos, somos praticamente incapazes de manifestar o que acreditamos, de lutar "nas ruas" por valores, de provocar ganhos no grito e ou até no braço.
Inacreditável! Sinto muito em reconhecer que perto dos que viveram a ditadura, dos que pintaram suas "caras" e foram as ruas para pedir o impeachment de um presidente da República, a minha geração não representa nada. Não fizemos nada de tão grandioso para entrarmos nos livros de história. Não lutamos contra as injustiças, nem tampouco contra a violência que está inserida neste "mundo cão", que por hora toma conta de nossas ruas, nossos bairros e de nossas cidades.
-Até quando vamos conseguir viver nesta prisão domiciliar? (Sem nem mesmo termos culpa?)
-Até quando vamos vendar os olhos e fingir que nada acontece? Fingir que está tudo como deveria estar e que não há diferença entre morro e asfalto?
-Até quando vamos achar que os Ladrões são somente aqueles marginalizados pelo capitalismo, enquanto em Brasília, alguns vestem gravata e conseguem "enfiar as mãos" no bolso das famílias brasileiras? ( passando, na maioria das vezes, de bons-samaritanos nas telinhas da Globo)
-Até quando vamos ter que abrir mão da liberdade pra conseguirmos (sobre)viver em sociedade?
-Até quando VOCÊ vai fechar os olhos para o que aconteceu a João Hélio? Até quando vai achar isso normal e encarar como mais um ato de violência?
-Será possível que a SUA conscientização só chegue quando uma tragédia dessas acontecer próximo a você? Ou será quando perceber que a vida pra ser segura deve ser vivida dentro das paredes de concreto que o cercam em casa?
É assustador. Eu, mesmo tendo consciência que a profissão que escolhi em súmula retrata a tragédia, não sou capaz de compreender, não consigo achar normal e ou deixar de lado a incômoda sensação pelas notícias que tenho ajudado a emitir e pelas que tenho receptado. É assustador perceber que estou formando com a possibilidade de noticiar mais barbáries como esta. É insano aceitar. É insano acreditar e esperar que a violência, a injustiça e a desigualdade social será – em breve - banida da nossa sociedade como milagre.
Sei bem que somos diferentes das gerações que nos antecederam... Que cada um tem sua maneira de se manifestar e de lutar por uma mudança sócio-economica. Contudo, faço neste momento o que posso, afinal, creio que com essas palavras é mais fácil conscientizar, é mais fácil clamar a atenção dos lideres estudantis para que eles possam promover a união... Para que possam formar a massa e conseqüentemente induzir a formação de um manifesto que demonstre toda essa decepção, essas indignação de ver na TV, ler ou ouvir que "outra criança foi arrastada cruelmente pelas ruas de uma cidade brasileira e que 'parte de seu corpinho foi perdido pelo caminho" (Como informou a Revista Veja do dia 18 de fevereiro de 2007) e que mais de duas semanas depois da barbárie ainda não foi localizada.
Mediante todos esses acontecimentos, de toda ideologia que guardamos no papel, peço a união, a participação em massa de nós, estudantes, jovens... para mostrarmos que somos uma geração que não passará despercebido na história, não somos e nem estamos conformados com o que acontece. Queremos mudar o futuro insano dessa nação, queremos provocar, não uma revolução, mas uma conscientização coletiva.
Pois bem... neste momento deve estar pensando: "-Poxa, que texto legal!" ou então "Se é que acredita tanto no que diz, por que não vai você mesma as ruas?" Porque sozinha sou apenas uma e falo apenas por mim. Com a massificação proposta, e o auxilio de DA's, DCE's.... podemos representar a voz de toda uma sociedade cansada de aceitar e concordar com o insurreição da violência, o abuso de poder e a falta de liberdade dos cidadãos.
João Hélio, de 6 anos, foi arrastado por 7Km.
E AÌ?
NÓS NÃO VAMOS FAZER NADA?
Mais do que a simples recepção da notícia, o que me fez parar pra pensar, foi sem dúvida me deparar com essa campanha - proposta por um publicitário que tem um filho mais ou menos da mesma idade do garoto João Hélio – nas ruas da minha cidade. Será que vamos ser capazes de ficar sentados inertes, enquanto o Brasil, de norte a sul, grita por socorro? Será que vai ser preciso ver uma tragédia dessas acontecer com nossos pais, irmãos ou filhos para sensibilizarmos e concordar que é necessário mudar?
É isso aí, a partir de agora acredito ter plantado uma semente em cada um de vocês que chegou até o final deste manifesto, deste desabafo. Espero confiante que possamos chegar a algum lugar com isso... quem sabe um manifesto em 1º de abril de âmbito nacional, quem sabe no mês de maio, mês das mães. Pois é, como muitos dizem, sonhar é de graça. E eu, como brasileira que sou, sonho com a hora e o dia que nós, os jovens do século XXI possamos sair e lutar, sair e gritar até porque do jeito que está não pode ficar.

